Colóquio 2009

 

XIV COLÓQUIO HEIDEGGER, "História, escassez e liberdade"

(Paraty-RJ,  27 de outubro de 2009)
 

 

Promoção:

II CONGRESSO LUSO BRASILEIRO DE FENOMENOLOGIA

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE FENOMENOLOGIA

SOCIEDADE BRASILEIRA DE FENOMENOLOGIA – SEÇÃO SÃO PAULO

GRUPO DE PESQUISA EM FILOSOFIA E PRÁTICAS PSICOTERÁPICAS – GFPP

GT HEIDEGGER DA ANPOF

 

 

 

Coordenador Geral 

Oswaldo Giacoia Júnior

 

 

 

Coordenadores Adjuntos

José Carlos Michelazzo

Eder Soares Santos

   

 

 

 

 

 

TRABALHOS  APRESENTADOS

 

André Duarte (UFPR/CNPq)

“Pobreza de espírito? Philippe Lacoue-Labarthe e a crítica à ‘arqui-política’ heideggeriana”

  

Edgar Lyra (PUC-Rio) 

“Heidegger e a sustentabilidade”

 

Marco Antônio Casanova (UERJ)

“Pensamento em transição: natureza e técnica no horizonte da concepção heideggeriana do outro início”

 

Oswaldo Giacoia Junior (U NICAMP) 

“Cuidar, preservar, poupar: para uma Ética da Necessidade”

 

Róbson Ramos dos Reis (UFSM) 

“Heidegger e a fragilidade da pobreza”

 

Zeljko Loparic (PUCSP/Unicamp) 

“A pobreza na chave antropológica” 

 

 

 

RESUMO E MINI-CURRÍCULO

 

André Duarte (UFPR/CNPq)

“Pobreza de espírito? Philippe Lacoue-Labarthe e a crítica à ‘arqui-política’ heideggeriana”

Resumo: O texto problematiza a crítica de Philippe Lacoue-Labarthe à conferência Die Armut, proferida por Heidegger em 1945. Segundo sua crítica, a tese heideggeriana a respeito da história do ser constituiria uma ‘arqui-política’ cega para a miséria européia no final da segunda guerra, totalmente encoberta pela expectativa cripto-messiânica pelo ‘último deus’ salvador. Contrariando essa interpretação, argumento que a história do ser proposta por Heidegger não constitui procedimento de elisão da esfera ôntica e de suas misérias por meio de abstrações especulativas eivadas de conservadorismo político. Por outro lado, a hermenêutica epocal de Heidegger constituiria a perspectiva teórica que ilumina a raiz ontológica da época moderna, a qual, por sua vez, fundamenta as manifestações técnicas violentas subjacentes a fenômenos políticos como o comunismo, o fascismo e a democracia liberal. 

Mini-currículo: Graduado em Ciências Sociais (1988) pela Unicamp, Mestre (1992) e Doutor (1997) em Filosofia pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutor pela Universidade de Barcelona como bolsista do CNPq (2003). Atualmente é pesquisador bolsista do CNPq e atua nos Programas de Graduação e Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). É coordenador do GT Heidegger associado à ANPOF e líder do Grupo de Pesquisa em Ontologia, Fenomenologia e Hermenêutica cadastrado no CNPq. Publicou pela Editora Paz e Terra O Pensamento à sombra da ruptura: política e filosofia em Hannah Arendt (2000). Entre suas publicações mais recentes se incluem: “Heidegger y el Otro: Ser y Tiempo como ética postmetafísica”. In Daímon, vol. 37, Revista de Filosofía de la Universidad de Murcia, 2006; “Hannah Arendt, biopolitcs and the problem of violence: from animal laborans to homo sacer”. In Hannah Arendt and the uses of history: Imperialism, Nation, Race and Genocide (orgs.) Richard King e Dan Stone. Nova York e Oxford : Berghahn Books, 2007. 

 

 

 

Edgar Lyra (PUC-Rio) 

“Heidegger e a sustentabilidade”

Resumo: Percebemos nas últimas décadas um crescimento acentuado das preocupações com o meio ambiente e com a sustentabilidade do modelo global de desenvolvimento. Estados, corporações e organismos da sociedade civil envolvem-se cada vez mais numa discussão transnacional. Tecnicistas, reformistas e adeptos da ecologia profunda divergem, todavia, quanto aos rumos a tomar. O centrum de todo o embate está na ausência de acordo acerca daquilo que precisa ser preservado e dos motivos pelos quais deveria sê-lo. Heidegger pensou durante toda a sua obra em nossas disposições – agradecidas, serenas, angustiadas, calculativas, furiosas – em relação aquilo que a cada tempo “é”. As reflexões sobre o sentido próprio da palavra “pobreza”, presentes no texto Die Armut (A Pobreza), de 1945, funcionam como ponto de partida para pensar os embates descritos.

Mini-currículo: Doutorou-se em filosofia pela PUC-Rio (2003). Foi representante dos alunos de pós-graduação, inaugurando as Semanas de Filosofia (SAF-PUC), hoje em sua oitava edição. Leciona regularmente no Departamento de filosofia da mesma Universidade e também no Departamento de Relações Internacionais do IBMEC-RJ. Ocupa-se prioritariamente dos possíveis modos de ser do pensamento filosófico no mundo técnico. Entre as atividades desenvolvidas está a tradução do texto de Martin Heidegger, Que quer dizer Pensar? (GA 8) e pesquisas com o uso de tecnologias em sala de aula. Tem como publicações principais os artigos "Superação da Metafísica, Realidade Técnica e Espanto" e "Heidegger, História e Alteridade", ambos in Natureza Humana (n° 5.1, 2003) e (n° 8.2, 2006), respectivamente, e "Heidegger e a Educação", in Aprender (n° 10, 2008).

 

 

 

Marco Antônio Casanova (UERJ)

“Pensamento em transição: natureza e técnica no horizonte da concepção heideggeriana do outro início”

Resumo: O objetivo primordial do presente trabalho é considerar o problema da técnica e da natureza nos textos tardios de Heidegger à luz de sua concepção do outro início do pensamento. No que concerne a essa concepção, o que procuraremos mostrar a princípio é o fato de o outro início não poder ser compreendido como algo da ordem de um novo início positivamente determinado, de um novo momento da história do ser no qual se teria um conjunto específico de características passíveis de serem apresentadas em um discurso explicitativo. Ao contrário, como teremos a oportunidade de perceber, o outro início instaura antes a idéia de um pensamento radicalmente em transição, que aquiesce ao esquecimento como condição do acontecimento mesmo de todos os projetos históricos de mundo e à errância como constitutiva de todos esses projetos. Com isso, nossa tese é a de que Heidegger faz da filosofia um exercício não de preparação de novas ontologias, mas de guarda da historicidade mesma do lugar de todo acontecer das ontologias. Isso, por sua vez, tem uma repercussão direta sobre o problema da técnica e da natureza, porque revela ao mesmo tempo o horizonte primordial de análise por parte de Heidegger desse problema: a necessidade de um combate constante da filosofia às tendências de sedimentação que acompanham as ontologias e o esquecimento no qual elas sempre necessariamente se movem.

 Mini-currículo: Doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Universidade Karl-Eberhard Tübingen (1999). Pós-doutorado na Universidade Albert-Ludwig Freiburg (2005-2006). Professor adjunto do departamento de filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (desde 1995). Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Fenomenologia e Hermenêutica (desde 2004). Coordenador brasileiro do projeto de cooperação internacional “Questões fundamentais da hermenêutica filosófica: arte, ciência e política” firmado entre a UERJ,  a PUCRS e a Universidade Albert-Ludwig Freiburg. Livros publicados: Nada a caminho: impessoalidade, niilismo e técnica na obra de Martin Heidegger (Editora Forense Universitária, 2006); O instante extra-ordinário: vida, história e valor no pensamento de Friedrich Nietzsche (Editora Forense Universitária, 2003); Para Compreender Heidegger (Editora Vozes – 2007 – no prelo). É autor de diversos artigos relacionados ao pensamento de Heidegger e de Nietzsche e tradutor de obras de Heidegger, Nietzsche, Goethe, Scheler, Figal, Gadamer e Adorno. 

 

 

 

Oswaldo Giacoia Junior (UNICAMP)

“Cuidar, preservar, poupar: para uma Ética da Necessidade”

Resumo: “Oh tu minha vontade! Tu viragem de toda necessidade (Not), tu minha necessidade (Notwendigkeit)! Poupa-me de todas as pequenas vitórias! Tu, destinamento de minha alma, que eu denomino destino! Tu-em-mim!”. Nietzsche reúne aqui liberdade e necessidade, fundindo-os na idéia de amor fati. Penso que Heidegger apreendeu com clarividência esse ponto, no qual se opera também a conversão da pobreza (Armut) em fortuna: “O livre repousa no autêntico poupar. Apenas na liberdade e no seu libertar preservador impera a necessidade. Se pensamos, pois, a essência da liberdade e da necessidade, então a necessidade não é, de maneira nenhuma, como toda metafísica pensa, o contrário da liberdade, mas unicamente a liberdade é em si necessidade (Notwendigkeit)” (Die Armut, p.8). A comunicação tentará mostrar o que está compreendido nesse apelo para poupar-nos das pequenas vitórias - que esse pensamento torna possível a conquista de um si mesmo autêntico, que não se confunde com o ego ou com a unidade da consciência, mas consiste na livre aceitação do destino próprio. Despojar-se da onipotência delirante do livre arbítrio é adquirir a fortuna da serenidade.

 

Mini-currículo: Doutor em Filosofia pela Universidade Livre de Berlim. Pós-Doutorado em Filosofia pela Universidade Livre de Berlim, pela Universidade de Viena e pela Universidade de Lecce. Professor Livre Docente em Filosofia do Departamento de Filosofia da Unicamp. Autor de: Os Labirintos da Alma (1997); Nietzsche (2000); Nietzsche & Para Além de Bem e Mal (2004); Nietzsche como Psicólogo (2004); Sonhos e Pesadelos da Razão Esclarecida (2005); Além do Princípio do Prazer - Um Dualismo Incontornável (2008); vários artigos publicados em veículos especializados sobre Nietzsche, Heidegger e filosofia clássica alemã, em geral.

 

 

 

Róbson Ramos dos Reis (UFSM)

“Heidegger e a fragilidade da pobreza”

Resumo: Na presente contribuição examinarei a noção de pobreza essencial, a partir de A Pobreza (Heidegger, 1945). Abordarei o problema de se  na distinção entre pobreza em sentido usual e em sentido essencial há uma analogia com a noção de pobreza que se encontra no movimento do Espírito Livre (M. Porete e M. Eckhart). A seguir, analisarei a noção de pobreza essencial a partir de uma hermenêutica da posse e da privação, para abordar então o problema do antinomismo implicado pela admissão de uma pobreza que seria também uma riqueza em sentido originário. Concluirei com um exame dos vínculos entre privação e liberação da privação no caso específico do fenômeno do sacrifício, entendido no âmbito da história. É em relação a esse sentido de sacrifício que vem à tona a fragilidade da pobreza essencial, dado que Heidegger afirma que nem mesmo as guerras mundiais (e a devastação que nelas se expõe) podem  motivar uma meditação da pobreza essencial. A presente contribuição é um estudo preparatório para a formulação de um problema mais básico, a saber: em que medida na história do seer (Seyn), entendido como acontecimento apropriativo (Ereignis), há uma economia fundamental de um dom que é, paradoxalmente, o do empobrecimento do pensamento?

Mini-currículo: Doutorado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1994. Atualmente é Professor Adjunto IV da Universidade Federal de Santa Maria. Publicou 20 artigos em periódicos especializados e 9 trabalhos em anais de eventos. Possui 7 capítulos de livros e 1 livro publicados. Possui 75 itens de produção técnica. Participou de 16 eventos no Brasil. Orientou 13 dissertações de mestrado, além de ter orientado 16 trabalhos de iniciação científica na área de Filosofia. Entre 1992 e 2006 participou de 8 projetos de pesquisa, sendo que coordenou 6 destes. Atualmente participa de 2 projetos de pesquisa, sendo que coordena 1 destes. Atua na área de Filosofia, com ênfase em Fenomenologia. Em suas atividades profissionais interagiu com 63 colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. Em seu currículo Lattes os termos mais freqüentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural são: Heidegger, Fenomenologia, Ontologia, Hermenêutica, Filosofia alemã, Indicação formal, Ciência, Kant, Verdade e Lógica. 

 

 

 

Zeljko Loparic (PUCSP/Unicamp)

 “A pobreza na chave antropológica”

Resumo: O trabalho se propõe a oferecer uma avaliação crítica da meditação ontológico-acontecencial de Heidegger sobre a pobreza, desenvolvida no texto Die Armut na forma de um sermão à la Meister Eckhart. Depois de acompanhar Heidegger na passagem da onto-teologia da metafísica ocidental para o pensamento ontológico-acontecencial do Ser, o trabalho estudará a determinação heideggeriana de pobreza, alcançada nesse horizonte, como carência de tudo, salvo do não-necessário, este sendo aquilo que liberta e protege da coerção do “necessário”, isto é, tanto das imposições (o trabalho etc.) exercidas pelas necessidades da vida como dos mandamentos da razão que visam assegurar uma vida boa (Kant). Tendo feito ver o caráter dissociado e, por isso, irreal da determinação heideggeriana da pobreza, o trabalho mostrará que esse traço pode ser mitigado e mesmo superado considerando a totalidade dos invariantes do acontecer pelo qual o homem chega ao mundo, aloja-se nele, continua nele, objetifica-o e, por fim, sai dele.

Mini-currículo: Doutor em Filosofia pela Universidade de Louvain. No período de 1966-69, fez estágios de Pós-Graduação na Alemanha, tendo assistido o seminário sobre Heráclito de Martin Heidegger e Eugen Fink em 1966/67. É Professor-Titular aposentado da Unicamp (área de História da Filosofia) e Docente da PUCSP e PUCRS. Na Unicamp, fundou e dirigiu (1980-88) a revista Cadernos de História e Filosofia da Ciência e foi Coordenador do Centro de Lógica (1982-85). É Membro Fundador (1988) e foi o primeiro Presidente (1989-94) da Sociedade Kant Brasileira. Em 1999 iniciou, na PUCSP, a revista internacional Natureza Humana, dedicada à filosofia da psicanálise na perspectiva heideggeriana, da qual é Editor-Científico. É autor dos livros Heidegger réu (1990), Ética e finitude (1995; 2ª ed. 2004), Descartes heurístico (1997), A semântica transcendental de Kant (2000; 3a. ed. 2005), Sobre a responsabilidade (2003) e Heidegger (2004), além de numerosos artigos publicados em revistas nacionais e internacionais.