Colóquio 2005

 

X COLÓQUIO HEIDEGGER, "A História em Heidegger"

PUCSP, Auditório COGEAE/PUCSP – Rua João Ramalho, 182 – Perdizes-SP:  7 de outubro de 2005 (das 13h30 às 18h00, 8 de outubro de 2005, das 09h00 às 17h30)

 

Promoção:

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA – UNICAMP

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO PSICOLOGIA CLÍNICA  – PUCSP

GRUPO DE PESQUISA EM FILOSOFIA E PRÁTICAS PSICOTERÁPICAS – GFPP

GT HEIDEGGER DA ANPOF

 

  

Coordenador

Zeljko Loparic 

 

  

Coordenadores adjuntos

José Carlos Michelazzo 

Maria de Fátima Dias

 

 

      

 

PROGRAMA

 

Sexta-feira: 07/10/2005 

13:30 – Credenciamento

 

14:00 – Benedito Nunes (UFPa), “Heidegger e a história” 

 

15:00 – Paulo Cesar Duque-Estrada (PUC-Rio), “História do ser e o problema da representação”

 

16:00 – Café

 

16:30 – Robson Ramos dos Reis (UFSM), “História e esquecimento em Ser e Tempo”          

 

17:30 – Vicente de Arruda Sampaio (Unicamp), “Teleologia e destino: algumas considerações sobre a interpretação heideggeriana da era da técnica como consumação da história da metafísica”

 

18:00 – Fim da Sessão

 

 

Sábado: 08/10/2005 

09:00 – Edgar Lyra (PUCRJ), “História em Heidegger: considerações a partir de Sobre a Essência da Verdade

 

10:00 – Café

 

10:30 – Zeljko Loparic (Unicamp / PUCSP / PUCRS), “A acontecência do ser e o processo de objetificação”

 

11:30 – José Carlos Michelazzo (SBF – Seção SP / Psicoterapeuta), “O caráter histórico-futural do homem e psicoterapia: ‘tudo começa pelo futuro!’”               

 

12:30 – Almoço

 

14:00 – Claudia Drucker (UFSC), “A técnica como destino”

 

15:00 – Wanderley J. Ferreira Jr. (UEG), “Heidegger e a história da filosofia”

 

16:00 – Café

 

16:30 – André Duarte (UFPr), “De uma história à outra: história e filosofia em Heidegger”     

 

17:30 – Fim do Colóquio

 

 

TÍTULO E RESUMO DOS TRABALHOS DOS PARTICIPANTES

 

André Duarte (UFPr / Pesquisador CNPq)

 “De uma história à outra: história e filosofia em Heidegger”

Resumo: A filosofia de Heidegger assumiu a história como motivo decisivo da interrogação filosófica desde o princípio. Em Ser e Tempo, por exemplo, Heidegger reflete sobre a historicidade fundamental do Dasein e sobre a exigência hermenêutica da destruição da história da ontologia, tarefas que não podem ser compreendidas isoladamente. Desde então, Heidegger se esforçou por delinear o caráter intrínseco da relação entre filosofia e história. O ser humano é histórico e filosófico simultaneamente, de modo que não se deve reduzir a filosofia à história, como determina o historicismo, ou a história à filosofia, como o fazem as filosofias da história. Entretanto, em Ser e Tempo Heidegger não se permite questionar filosoficamente o seu próprio tempo. Ora, ao longo dos anos 30, observa-se que a filosofia é pensada e praticada como instância privilegiada para a elaboração de um diagnóstico histórico-filosófico do presente. Isto se percebe nas preleções de Introdução à Metafísica, de 1935, nas quais Heidegger afirma que toda questão essencial da filosofia é necessariamente “anacrônica” (unzeitgemäss), mas, de maneira alguma, fora do tempo. Aliás, é a própria extemporaneidade da filosofia que lhe permite interrogar filosoficamente seu próprio tempo, à luz da questão do ser. Tanto quanto em Ser e Tempo, Heidegger busca determinar a relação entre história e filosofia recorrendo a uma reflexão de tipo fundacional: critica-se a determinação do caráter histórico da filosofia e da metafísica com base no argumento de que ambas se manifestam historicamente no curso do tempo. Agora, entretanto, já não interessa mais reconduzir a temporalidade cronológica a uma estrutura ontológica do Dasein. O fundamental parece ser o pensamento de que apenas a filosofia e a metafísica podem instituir as próprias épocas históricas, ao determinar como se dá em cada momento histórico a relação essencial entre o homem e o ser. A partir dos anos 30, portanto, a história deixa de ser pensada como estrutura existencial para ser pensada como a própria abertura ou clareira do ser. O presente trabalho tem por meta acompanhar e discutir essa mutação.

 

 

Benedito Nunes (UFPa)

“Heidegger e a história”

Resumo:  O trabalho está dividido em duas partes, segundo o breve sumário: 1) Em Ser e Tempo: história e existência; temporalidade e historicidade. 2) Após Ser e Tempo: historicidade e tradição; as fraturas da história; historicidade da escrita.

 

 

Claudia Drucker (UFSC)

“A técnica como destino”

Resumo: Uma das categorias centrais para se entender o pensamento de Heidegger, inclusive sobre a História, é a categoria de téchne. Este é um termo de difícil tradução. Seus primeiros usos filosóficos estão em Aristóteles, onde ele designa um saber que não é contemplativo (teórico), mas prático. Téchne não é simplesmente um produzir, como sugere o falso cognato “técnica”. Ela é um modo de mostrar o que algo é, deixando que a sua forma ressalte. A experiência de separar forma de matéria e universal de particular – tão característica, aparentemente, do teorizar, está na verdade enraizada numa compreensão “técnica” do ente e do próprio conhecer. Por trás do aparente primado da teoria, na tradição filosófica, Heidegger vê um primado da téchne ainda mais arraigado.  Esta compreensão técnica é tal que aponta no sentido de um descolamento, por assim dizer, de forma e matéria, de universal e particular. A téchne se converte em um procedimento de predefinir o que deve ser o ente. O sentido da história é o sentido de uma radicalização da téchne. O fim da noite cósmica do niilismo exige um modo de compreensão dos entes que dispense até mesmo a téchne – daí a dificuldade de superar o niilismo.

 

 

Edgar Lyra (PUC-Rio)

 “História em Heidegger: considerações a partir de Sobre a Essência da Verdade

Resumo: Reiteradamente ao longo de sua obra, Heidegger referiu-se ao opúsculo Sobre a Essência da Verdade, cuja primeira elaboração data de 1930. Chega a dizer, em entrevista ao L’Express (1969), ser esse trabalho a “dobradiça” entre Heidegger I e Heidegger II, inseparáveis um do outro. A questão da história é nele abordada na sua relação com a verdade do ser, mais exatamente, com a idéia de que a verdade, em seu contínuo desvelamento, está ontologicamente ligada a uma recusa originária do ser a uma apreensão plena ou definitiva. Dessa recusa originária decorrem a liberdade e a possibilidade do erro, a errância; decorre, igualmente, a possibilidade de completo desnorteamento. A possibilitação ontológica da história se liga, em outras palavras, ao destino de algo que se dá, mas não inteira ou definitivamente, guardando sempre uma cifra de transcendência. O fato, por sua vez, da relação com essa recusa atravessar toda a obra posterior do filósofo não só justifica a importância de Sobre a Essência da Verdade, como faz do opúsculo um bom ponto de partida para pensar, com Heidegger, o tema da história. 

 

 

José Carlos Michelazzo (Coordenador da SBF – Seção SP / Psicoterapeuta)

“O caráter histórico-futural do homem e psicoterapia: ‘tudo começa pelo futuro!’”  

Resumo: Ao longo de todo o seu itinerário de pensamento, Heidegger, na sua interpretação do tempo originário, sempre se posicionou de forma clara e aberta sobre o privilégio por ele concedido ao futuro em relação ao passado. Tal posição é solidária com uma outra, também assumida por ele, que é a do primado do princípio de possibilidade sobre o princípio de realidade. Estas duas posições permitem ao filósofo, em última instância, romper com a interpretação da essência metafísica do homem que o apreende numa perpectiva causal-naturalista, para no seu lugar apresentar uma outra de caráter histórico-futural. Seguindo uma afirmação de Heidegger de 1963 – “Tudo começa pelo futuro!” (Alles fängt mit der Zukunft an!) – procuraremos, ao final da exposição, fazer alguns desdobramentos deste caráter do Dasein no âmbito da prática clínica psicoterápica.   

 

 

Paulo Cesar Duque-Estrada (PUC-Rio) 

“História do ser e o problema da representação”

Resumo:  O trabalho pretende situar, no pensamento de Heidegger, a relação entre crítica da representação e história do ser, entendendo tal relação como um princípio hermenêutico que permite tanto uma leitura retrospectiva quanto prospectiva de sua obra. Algumas questões, de natureza hermenêutica como também desconstrutiva, serão igualmente situadas e consideradas a propósito da referida relação entre crítica da representação e história do ser.  

 

 

Robson Ramos dos Reis (UFSM)

“História e esquecimento em Ser e Tempo

Resumo: Neste trabalho examinamos a noção de historicidade, apresentada em Ser e Tempo, destacando os elementos que são relevantes para a formulação do problema ontológico. Iniciando com uma reconstrução da gênese ontológica da ciência histórica, que destaca a suposição do fenômeno da possibilidade existencial nos fundamentos de uma ciência historiográfica, examinamos a noção de esquecimento, que representa o modo inautêntico do passado. A seguir, consideramos a assimetria entre esquecimento e recordação, pois o modo próprio de temporalização do passado não é formulado em termos de recordação. Por fim, examinamos as implicações metodológicas da historicidade da compreensão de ser na semântica indicativo formal dos conceitos filosóficos. 

 

 

Vicente de Arruda Sampaio (Unicamp)

“Teleologia e destino: algumas considerações sobre a interpretação heideggeriana da era da técnica como consumação da história da metafísica”

Resumo: A interpretação heideggeriana da história da metafísica afirma a consumação (Vollendung) da mesma na era da técnica. A técnica seria o próprio destino (Geschick) enviado pelo ser ao homem contemporâneo. Não há neste pensamento um forte teor teleológico? Prever o termo de um processo histórico não corre o risco de ser uma antecipação teleológica baseada em teses anacrônicas que vêem no passado concepções do intérprete do presente? Pretendemos pôr o pensamento heideggeriano a salvo destas suspeitas e mostrar como a questão do ser exige o pensar a história em outros termos.

 

 

Wanderley J. Ferreira Jr. (UEG)

“Heidegger e a história da filosofia”

Resumo: O presente trabalho pretende expor a leitura heideggeriana da tradição metafísica ocidental, procurando assinalar as diferenças e semelhanças entre os dois momentos que marcaram esse diálogo com a história da filosofia. No primeiro momento da exposição será exposta a interpretação heideggeriana da história da filosofia ainda sob o pathos da problemática de Ser e Tempo – o sentido e a verdade do ser no horizonte da temporalidade finita do Dasein. No segundo momento, serão analisados alguns aspectos mais relevantes da concepção heideggeriana da tradição metafísica no horizonte da história do ser. A exposição conclui com o diagnóstico heideggeriano dos tempos atuais.

 

 

Zeljko Loparic (Unicamp/PUCSP/PUCRS)

 “A acontecência do ser e o processo de objetificação”

Resumo: Na sua primeira parte, o presente trabalho pretende mostrar que a concepção heideggeriana da acontecência do ser (Seinsgeschichte) foi elaborada como tentativa de: 1) compreender a essência da ciência e da técnica modernas no interior da história da metafísica, a saber, a partir do projeto nietzschiano de vontade de poder, o qual seria a figura terminal da objetificação metafísica do ser dos entes no seu todo e; 2) quebrar o poder objetificador da ciência e da técnica desconstruindo esse projeto, isto é, pensando o processo de objetificação como apenas um modo de autodesocultamento do ser e aguardando um outro começo do autodesocultamento do ser que retiraria o poder do autodesocultamento objetificador constitutivo da metafísica. Depois de fazer ver que a posição heideggeriana sofre de aporias internas paralizadoras, apresentarei razões para pensar que a ciência e a técnica se originam de um processo de objetificação inevitável, inerente ao acontecer humano; que a objetificação metafísica do ente no seu todo, evidenciada pela acontecência do ser tal como entendida por Heidegger, é apenas uma elaboração específica e não o fundamento desse processo; que, ao longo da história ocidental, a objetificação metafísica funcionou mais como freio do que como estímulo a objetificação científica; e que, portanto, a abordagem científica do mundo e o poder da técnica não podem ser ultrapassados pensando o fim da metafísica. Essas teses “pós-heideggerianas” (possibilitadas pelo diálogo com Heidegger) impõem as tarefas de reformular a pergunta heideggeriana pela essência da técnica e da ciência à luz de um conceito de processo de objetificação modificado e de elaborar um novo problema: o de saber como integrar a ciência e a técnica, já desvinculadas da metafísica, na estrutura do acontecer humano individual e social.