XXVI Colóquio Heidegger  2021

Canal YouTube Colóquio Heidegger / Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana, IBPW

06 a 10 de dezembro de 2021

Atmosferas da distância. 
História e verdade no mundo do distanciamento social

"O seer é o éter no qual o homem respira; sem tal éter ele é rebaixado a mero gado, caindo abaixo dele; seu fazer como um todo é rebaixado à criação de gado."

"Das Seyn ist der Aether, in dem der Mensch atmet, ohne welchem Aether er zum bloßen Vieh und unter dasselbe herabfällt und sein ganzes Tun zur Viehzüchtung erniedrigt wird." Heidegger,  Überlegungen II - VI (Schwarze Hefte 1931-1938), 232.



Heidegger escreveu que os humanos são criaturas da distância. Habitando as distâncias imensuráveis abertas pela transcendência a mundo, o ser humano é capaz de encontrar a genuína proximidade com as coisas. O XXVI Colóquio Heidegger aborda o tema do impacto na existência humana do distanciamento social resultante das medidas de cuidado e prevenção na pandemia da Covid-19. O objetivo principal do colóquio de 2021 é examinar, a partir dos conceitos e temas fundamentais da obra de Heidegger, o significado existencial, social, histórico e ontológico da disrupção de um dos aspectos mais estruturais da condição compreensiva humana: o compartilhamento corporificado e interativo de mundo. Esse objetivo também inclui a pergunta de se a experiência transformadora dessa disrupção representa um evento que obriga a repensar as indicações formais propostas por Heidegger sobre a existência humana, a espacialidade, a socialidade, a historicidade, a história, a saúde e o habitar o mundo.

 

Sessões

06/12
Adrián Bertorello (Universidade de Buenos Aires, UBA)  
Pandemia y explosión del sentido. Una lectura contaminada de Heidegger

Resumo: Es muy difícil emitir un juicio sobre un acontecimiento histórico que todavía está en proceso de desarrollo. De un momento a otro podría suceder que los acontecimientos tomen otro curso de acción y que las lecturas hechas sobre sobre la marcha queden invalidadas y fuera de lugar. No contamos todavía con la perspectiva del final de una narrativa desde la cual se pudiera hacer una lectura retrospectiva que cierre el espacio de sentido en el que ahora estamos viviendo. Me parece que una de las pocas certezas en la que podemos estar de acuerdo es que la pandemia desencadenó una nueva experiencia histórica. No hay prácticamente ningún ámbito de nuestro ser en el mundo que no haya sido afectado por la aparición del Covid a fines del 2019. Desde el más trágico de todos, que es la muerte, el sufrimiento y la enfermedad, hasta la restructuración de las prácticas familiares, laborales, sociales y académicas. La formulación del tema del congreso con las expresiones de “historia y verdad en el mundo del distanciamiento social" enuncia claramente que la pandemia se trata de un acontecimiento singular, extraordinario. Frente a este acontecimiento surge el interrogante de cómo abordarlo desde la filosofía de Heidegger. Me parece que hay dos estrategias posibles. La primera mira la nueva situación histórica desde el punto de vista del vocabulario de Heidegger a fin de explicitar los diversos sentidos que se están gestando en la pandemia. La otra estrategia mira la filosofía de Heidegger desde el punto de vista de la novedad y singularidad del ahora de la enunciación a fin de interrogarse sobre el impacto que puede llegar a tener este acontecimiento histórico en la recepción de su pensamiento. Dicho muy brevemente: la primera estrategia va de Heidegger a la pandemia. La segunda, de la pandemia a Heidegger. En este trabajo querría esbozar algunas ideas sobre esta segunda estrategia. No se trata de afirmaciones definitivas y sino más bien de la formulación de interrogantes. Sólo pretende ser unos apuntes tomados desde una mirada contaminada por la situación histórica que estamos viviendo. Mi intención no es confrontar la filosofía de Heidegger con los hechos actuales a fin de determinar si hay adecuación o no entre ellos. Comparto la tesis heideggeriana de que la filosofía no se desmiente apelando a hechos constatables. La estrategia de tomar como punto de partida la pandemia para dirigirse a Heidegger tiene, más bien, el sentido de bosquejar algunos aspectos de la transformación que la pandemia produjo en la lectura de la obra del filósofo alemán. Si acordamos en que lo que estamos viviendo desde finales del 2019 hasta la fecha es el nacimiento de un acontecimiento histórico singular que está transformando nuestro ser en el mundo, entonces esta transformación recae también sobre el plano de la recepción. Se puede hablar, a mi juicio, de una lectura contaminada por nuestro ahora de la enunciación.



07/12   
Giovanni Jan Giubilato (UEL)
Para uma (impossibilidade) metafísica da distância

Resumo: Com essa contribuição pretende-se pensar a distância e o isolamento - estas situações que se tornaram tão comuns e familiares com o acontecimento da pandemia - como fenômenos existenciais. Nossa tese é que se a experiência da pandemia, apesar do demorado confinamento em nossas habitações, configura-se essencialmente como uma experiência da Unheimlichkeit, ou seja como uma experiência da estranheza e do não-estar-em-casa - e de fato ela foi amplamente descrita nesses termos - a causa profunda disso reside numa desarticulação de estruturas ontológio-fundamentais da nossa existência. O acentuado descompasso que, por causa da distância, experienciamos em diferentes níveis e com diferentes intensidades em nossas vidas, origina-se na desestabilização de tendências existenciais fundamentais: aliás, segundo a formulação de Heidegger, o Dasein é essencialmente des-afastante.  



Marco Casanova (UERJ)
O fim da proximidade e os dilemas da distância: consideração da ansiedade e do tédio contemporâneos a partir dos modos de organização do espaço, do tempo e do corpo em nossa época

Resumo: Em sua conferência 'A coisa', Heidegger defende uma posição aparentemente estranha: a posição, segundo a qual o nosso tempo se caracterizaria precisamente pelo fim de toda e qualquer proximidade. Essa posição, que se explicita por meio de uma análise dos modos de relação com as coisas em nosso tempo, deixa reverberar uma compreensão que atravessa os modos heideggerianos de compreensão da existência na era da técnica. O que pretendemos na presente apresentação é reconstruir essa compreensão com vistas antes de tudo a uma leitura do pensamento fenomenológico e hermenêutico heideggeriano como uma descrição de modos históricos de organização espaço-tempo-corporais. Para acompanharmos os impactos dessa descrição em tempos de pandemia, nós nos dedicaremos a dois fenômenos paradigmáticos: a ansiedade e o tédio.



08/12
Zeljko Loparic (IBPW)
Proximidade e distância – configurações ôntico-ontológicas do espaço humano

Resumo: Numa primeira parte deste trabalho, mostrarei, com apoio nos seminários de Zollikon, que a Daseinsanalyse, a analítica existencial-ontológica do ser-o-aí humano pode ser usada e aplicada como componente filosófico de um paradigma científico para a constituição de antropologia normal e patológica. Na segunda parte, tomarei o caminho inverso. Tomando como base a teoria winnicottiana do espaço potencial, parte da sua antropologia científica normal e patológica, mostrarei que 1) a crise da espacialidade humana resultante da pandemia pode ser usada para fornecer exemplos do aí do ser-o-aí, e 2) espaço potencial de Winnicott exige repensar os existenciais de Heidegger, em particular a espacialidade e o aí. Por esse caminho, também recomendado por Heidegger em Zollikon, fica possível problematizar a ontologia do existir humano (não a história do Ser) com base em uma ciência ôntica – descrição de modos experienciados de ser dos seres humanos, que são amostras no tempo-espaço da natureza humana – não considerada e mesmo desconhecida por Heidegger. 



09/12
Edgar Lyra (PUC-Rio)
A Pandemia Covid e o Esquecimento da Respiração: uma aproximação fenomenológica

Resumo: A gestão da Covid no Brasil está entre as piores do mundo. Produziu resultados econômicos e sociais terríveis. Ainda mais ainda que indagar como nos embrenhamos no concomitante extravio político, caberia pensar por que essa situação não foi capaz de disparar entre nós nenhum assombro mais decisivo. Por isso, mesmo ciente da importância do debate mais estritamente político que circulou e circula entre nós, busco encarar o problema por uma outra perspectiva, dando alguns passos em direção a uma fenomenologia da respiração. Afinal, a Covid é uma doença respiratória, que nos convida – ou deveria convidar – a pensar sobre a respiração em seus múltiplos sentidos, em arco que vai do plano fisiológico ao simbólico. A respiração tem a ver com nossas relações com o meio ambiente, com a conservação das florestas do planeta e com a poluição do ar. Historicamente, podemos pensar na qualidade do ar nos porões os navios negreiros, no uso do Zyklon B na II Guerra Mundial e, mais recentemente, no paradigmático assassinato de George Floyd nos EUA. Respirar se relaciona com nosso ritmo de vida, com as máscaras que estamos a usar e com as máquinas necessárias à conservação da vida daqueles mais severamente infectados pelo vírus. Com tanta gente morrendo de falta de ar à nossa volta, é no mínimo curioso que a respiração permaneça filosoficamente sub explorada. São, portanto, dois os temas a discutir: nossa empobrecida relação com o respirar, e a dificuldade de, mesmo diante de meio milhão de mortes direta ou indiretamente causadas por asfixia, não encontrarmos caminho para discutir o assunto com mais visibilidade, amplitude e profundidade.


Róbson Reis e Gabriel Dietrich (UFSM)
Heidegger e a essência do vírus

Resumo: O objetivo geral deste trabalho consiste em examinar o status ontológico da dimensão virológica da pandemia, isto é, o esforço reflexivo geral consiste em elucidar o que são os vírus. Mais especificamente, este esforço crítico desdobra-se em dois momentos complementares. Inicialmente, a pergunta pelo ser dos vírus será desdobrada em uma dupla direção, que abarca articuladamente a) uma linha de resposta negativa com a qual são oferecidas razões para recusar a tradicional categoria ontológica de objeto, e, adicionalmente, b) uma linha de resposta positiva em que são oferecidas razões para a adoção da categoria ontológica de processos. Deste primeiro momento resulta o deslocamento de centralidade da tradicional categoria ontológica de objeto e a caracterização positiva da identidade ontológica de vírus em termos de processos. De posse desta caracterização positiva, no segundo momento da apresentação serão apresentados alguns resultados da hermenêutica ontológica da vida, esboçada por Heidegger nos Conceitos Fundamentais da Metafísica (GA 29/30). Dois objetivos específicos serão tomados em consideração: 1) avaliar a eventual pertinência da elucidação modal do modo de ser da vida (vida como unidade processual de aptidões) para a elucidação do estatuto ontológico dos vírus e 2) estabelecer pontos de articulação dessa interpretação com a ontologia dos processos. Um resultado importante das respostas às perguntas formuladas é que a tematização científica dos vírus não estaria fundada no compromisso com a ontologia da Vorhandenheit. Na primeira parte da exposição serão reconstruídas as noções de possibilidade orgânica, aptidão, estrutura dimensional da pulsão e movimento orgânico, com base nas elaborações e indicações formais presentes em Os Conceitos Fundamentais da Metafísica. A seguir, será apresentada a atual ontologia de vírus, que ressalta o estatuto não objetual, relacional e processual desse tipo de ente. Por fim, será examinada a consistência dessa análise ontológica com as categorias que determinam o modo de ser da vida expostas na primeira parte.



10/12
Cláudia Drucker (UFSC)
Depois da onto-teo-logia

Resumo: Historicamente, a dependência mútua de teologia e filosofia moldou ambas, embora mais decisivamente a teologia. A pergunta sobre se esta solidariedade é conjetural ou essencial não é indiferente ao pensador.  Mesmo concluindo pela independência do pensamento diante não apenas da teologia, mas também da fé, Heidegger ainda considera legítima a pergunta sobre a relação com o divino em circunstâncias históricas marcadas pela “consumação da metafísica”.  Pois alguma relação com o sagrado ou os deuses (agora nem tanto definida como fé) continua sendo uma possibilidade do existir, de acordo com as indicações textuais de que dispomos.  Embora mais indefinida, e definitivamente menos cristã, a relação com o divino não desaparece das preocupações (pessoais ou não) de Heidegger.  Pretendo esboçar em linhas gerais como uma relação pós-teológica com o divino precisa incluir –esses sim-- os temas heideggerianos por excelência: o tempo e a sua centralidade para a compreensão do que seja ser.  Existe uma relação distinta com o tempo que corresponda à vida religiosa na analítica existencial?  Depois da “viravolta”, existe uma determinação temporal característica do próprio divino, mais até do que daquele que crê? Parece que a resposta deveria ser afirmativa em ambos os casos. 

 

Organização

Alexandre Ferreira

Eder Soares Santos

Róbson Ramos dos Reis 

Tito Marques Palmeiro